Terça-feira, Julho 14, 2009

Sobre senhas e códigos

Quem sabe se você desenhasse um coração com o meu nome dentro? Não? É, bastante apaixonado e nada poético. Quem sabe se você escrevesse uma carta pra mim? Não? Mas pode ser curtinha... Ninguém se atreve a escrever para ou sobre mim. È, realmente dá muito trabalho pensar. Nem todo mundo consegue. Quem sabe uma frase? Não também? Então, quem sabe se você me ajudasse a colorir o mundo com cores vibrantes e riscos fora do contorno? Aaah, você faltou à aula de colorir no primário. Entendo.
Prefere contratar um chaveiro? Mas acho que cadeados são cheios de senhas. Você consegue um especialista em códigos? Bacana. Mas e onde vão ficar o mistério e a magia? Ah, você acha tudo isso meloso demais. Concordo, também acho. Pateticamente meloso.
Conseguiu abrir uma das trancas da porta da redoma? Parabéns. Você realmente é bom. Hummm... ta usando explosivo na porta. Entendo. Mais uma? Ô, que legal...
Não tenho mais dúvidas da sua capacidade de abrir portas e arrombar janelas. Mas te confesso que entrar é um processo lento e complicado, cheio dessas coisas que você acha melosas e exigem o trabalho de pensar. Encontrar o coração é fácil. Difícil é ganhar estadia.

Michelle Corazza

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Jornalista diplomada, com orgulho

Agora também faço parte do Twitter (vou até conferir se escrevi certo) e nem sei mexer nessa birosca. Além de Orkut, MSN, blog, eu também faço parte da comunidade “Jornalista: só com diploma” (que eu ainda não consegui publicar bulhufas) e do Twitter, que eu ainda não percebi pra que serve. Ou seja, estou inserida em vários canais de comunicação, ligada a centenas de pessoas e com vontade de fugir pra uma ilha deserta. É, tem dias que as coisas ficam realmente complicadas.
O problema de participar de mil mundos não é você se expor, mas decorar todas as senhas. Ok, eu poderia colocar a mesma senha em todos. Mas já pensou se alguém descobre? Aí meu mundo virtual e minha reputação cibernética estariam perdidas. Senhas são um problema.
Mas não quero escrever sobre números porque vou acabar lembrando do meu saldo bancário e ficar triste. O salário terminou no dia 5 e hoje é só dia 7, ainda faltam 24 dias para o fim do mês. Putz, lembrei!
Tenho tentado pensar em algo inteligente para me posicionar sobre a desvalorização da profissão Jornalista e a desnecessidade de um diploma. Mas eu continuo tão p. da vida que a única coisa que eu penso é: sacanagem! Caramba! Quefilhadaputice! E desejo que um dia, não muito tarde, o STF precise informar o mundo de algo importante e algum jornalista-sem-diploma peque na parte mais primordial, pelo que lutam todos os jornalistas diplomados: qualidade de informação.
Confesso que não sou a jornalista mais antenada no mundo. Eu sequer assisto TV. As coisas me cansam muito rápido e ficar na frente da TV me deixa entediada. Assisto filme e só. E mesmo assim levanto umas 15 vezes do sofá até chegar ao fim. Gosto de ler notícias na Internet. E geralmente só leio o lead, mais nada. Se for interessante, um ou dois parágrafos.
O povo aqui de casa diz que eu queria ser jornalista desde os cinco anos e que estraguei várias fitas K-7 gravando meus programas de rádio, onde eu fazia sorteios (provavelmente inspirada na Xuxa) e entrevistava as minhas bonecas. Adoro rádio, embora o “ao vivo” ainda me deixe com as bochechas vermelhas e muda.
Acredito piamente, e duvide quem quiser, que eu nasci jornalista, mas ainda acho que minha alma é mesmo de artista. Fiz jornalismo porque gosto de escrever. Amo ler. Devoro histórias e crônicas diariamente. Fico imaginando textos durante o trabalho e nos cinco minutos que caminho. Meu cérebro entra em erupção quando minhas pernas se movem. Crio personagens e converso com eles. Eu interpreto quando estou sozinha. Eu dou asas à minha imaginação.
Mas como jornalista, eu também defendo a necessidade de diploma. A necessidade de um Brasil com qualidade de informação. O direito do cidadão de ter conhecimento das notícias por fontes confiáveis e corretas. A valorização de uma classe que há anos luta para ter reconhecidos os seus direitos. Jornalista, seja de rádio, TV, internet, jornal ou assessoria: só com diploma.

Michelle Corazza

Terça-feira, Junho 30, 2009

Algumas fugas são necessárias

E lá estou eu, fazendo tudo de novo. Exatamente igual. Correndo, correndo, correndo. Fugindo do amor e de todas as formas como ele se apresenta. Fugindo de tudo que me parece bacana demais e sensato demais.
Eu vivo dizendo que estou cansada dos filhos da puta que cruzam o meu caminho, mas a verdade é que com eles eu sei jogar. Eu sei perder. Eu sei que depois do “me abre, me fecha, me chama de gaveta”, vem um turbilhão de sensações inexplicáveis e um zilhão de perguntas sem respostas. E eu sei que vou esbravejar a minha ira, condenar até a quinta encarnação do pobre coitado e provar por A+B que ele é um idiota. Também vou me achar uma babaca por ter me envolvido com um ser assim. Mas é o jeito que eu sei amar. Eu só sei amar quando dói na carne, quando fere na alma, quando dá vontade de morrer de tanto amor. Eu só sei amar quando estou loucamente apaixonada. O amor, para mim, é como uma doença.
Quando me apaixono eu viro a pessoa mais burra que eu conheço. A mais tapada. O mundo ganha um tom lilás artificial cheio de graça e até a desgraça fica bonita. O meu estômago parece uma danceteria de borboletas amarelas e os passarinhos verde-azulados não saem da minha janela. Só que eu me encho tanto de amor e da outra pessoa que acabo me perdendo dentro de mim. Acabo enjoando com essa doçura sentimental toda.
Então, é só sentir que ele vem em minha direção e eu fico munida de soldadinhos imaginários, de redomas, de muralhas. E corro, pulo janelas, saio pela porta de emergência. A liberdade sem o amor é uma necessidade constante. É quase requisito básico de sobrevivência.
O amor me cansa mais que duas horas de academia. O amor me desgasta porque eu não sei amar pouco. E também acho muito meloso ser amada. Não gosto da sinfonia romântica e serena do amor. Não gosto dos beijos calmos do amor. Prefiro perder a cabeça, o tino, o coração. Eu sou exagerada. Exageradamente exagerada.
E lá estou eu, fazendo tudo de novo. Exatamente igual. Fugindo do amor e de todas as formas como ele se apresenta.

Michelle Corazza

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Do jeito dela

E lá vai ela tropeçando nas palavras, se enrolando em suas teorias. Cada verdade estampada na cara como uma regra. Todas as mentiras mascaradas em filosofias de vida.
Ela veste a armadura todos os dias de manhã e ninguém conhece sua cara de tristeza. Ninguém habita seu coração de pedra. Ninguém penetra as redomas invisíveis.
Lá vai ela com seu sorriso bobo nos lábios. Vez ou outra solta uma gargalhada. Hora por graça, outra por desespero. Mas ninguém sabe o que se passa por dentro. Ninguém se atreve a decifrá-la.
Lá vai ela... Anda de cabeça erguida. Inventa amores e vive de mentiras.

Michelle Corazza

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Decifra-me ou te devoro.

Sempre tive gosto esquisito. Nunca me apaixonei por uma pessoa, mas por partes dela. Já namorei uma bunda, fiquei de quatro por um nariz, me apaixonei por um olhar 43, cismei com um abdômen, paquerei uma boca carnuda e quis ser a mulher da vida de um sorriso. Claro que depois desses pedaços que me chamaram a atenção, veio o sentimento pela parte inteira. Mas que não durou tempo suficiente para escapar da sina de paixão-miojo.
Só que eu continuo procurando metades e fragmentos que me despertem de alguma forma. Talvez seja até aquela velha história da metade da laranja subjetivamente impregnada nas minhas veias, porque no fundo, bem no fundinho, até a mais moderna de todas as mulheres quer ter onde esquentar os pés gelados no inverno.
Quando aparecem caras bacanas, que se apresentam com mais pedaços perfeitos, eu confesso que tenho medo. Já pensou um cara com sorriso bonito, um nariz engraçado e ainda por cima inteligente? Tenho até pena do meu coração.
Eu fujo de todos os tipos bacanas que cruzam o meu caminho porque eu morro de medo de me apaixonar. Eu fujo de todos os tipos que me fazem rir, porque eu sei que vou me apaixonar. Eu fujo, querendo ficar, de todos que me despertar mais que tesão, porque meu coração ainda não é à prova de pancadas e machuca a cada tombo. E eu ando tão cansada de refazer curativos e passar pomadas cicatrizantes em mágoas que não param de doer, que fujo. Desapareço.
Só que dói tanto fingir que não gosto. Dói tanto sentir o coração num descompasso acelerado e ensaiar cara de paisagem na frente do espelho. Dói tanto prender um “eu te amo” entre os dentes. E dói de um jeito que quem não sente, não pode imaginar.
Às vezes eu sinto vontade de dizer “ó, eu sei que você sente tanto quanto eu, mas não fala nada. Só me abraça!”, e assim ficar por uma semana. Deixando o cheiro de perfume impregnar nos poros. Deixando o cheiro do pescoço grudar na pela nua do nariz do outro. Ou então passar horas admirando o sono. Ver a cara amassada ao acordar e os olhos miúdos. Eu confesso que acho a hora de acordar a parte mais limpa e honesta do amor. A parte mais linda.
Os caras bacanas me tiram do sério. Tiram mesmo. E o mais bacana de tudo é que eles são naturalmente bacanas. Não tentam ser o que não são, não fingem ser o que não são. São eles mesmos. De um jeito leve. De um jeito eterno.
Talvez eu deixe de correr quando um cara bacana de verdade decifrar todas as senhas da minha esfinge particular.

Michelle Corazza

Sábado, Junho 06, 2009

A solidão do amor

“O amor é um grande laço, um passo pr’uma armadilha. Um lobo correndo em círculos para alimentar a matilha.” Ah, o amor, esse bichinho. O amor não é cura, é doença. É extremo. O amor perturba, fascina, corrói, enlouquece. Dói quando falta ou quando transborda no peito. Tem cara, tem gosto, tem cheiro. Ah, o amor... Cantores da Música Popular Brasileira já fizeram sucesso ao entoar hinos românticos como Amor I Love You e Sozinho. O amor entrou no rol dos temas bregas. Mas ser brega, pelo jeito, é coisa que não sai de moda.
Filósofos e escritores se deliciam ao estudar o ser humano e suas relações de amor e ódio. O que fazer quando teorias surgem justamente para desconstruir tudo o que foi anteriormente assumido como verdade absoluta: o amor eterno, fiel, inocente? Não foi só a modernidade que passou a rasteira nos corações apaixonados, os romances deixaram de ser simbólicos para se acomodar aos dias atuais. Não existem mais Marílias e Lídias idolatradas. Não existem mais amores platônicos. O mundo gira rápido demais para alimentar emoções falsas. As pessoas estão mais preocupadas em serem objetivas do que alcançarem a felicidade colorida supostamente escondida nas entrelinhas do amor.
A vida agitada, a necessidade de se encaixar ao meio em que se vive, tudo influi e dificulta as relações entre as pessoas. Já dizia Drummond que o mundo pesa demais nos ombros. “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco”. O novo mal do século: a solidão!
O romantismo e as doces palavras de Drummond, Tomás Gonzaga ou Ricardo Reis, ficaram esquecidas na gaveta. Nos dias atuais, as pessoas parecem acreditar mais em teorias de Sartre e Nietzsche, onde a credibilidade das palavras cai no abismo e a descrença passa a ser a razão do mundo. A fidelidade virou piada; o casamento, a legítima comédia da vida privada.
O amor deixou de unir duas pessoas para ser individual e egoísta. Não se ama o outro pelas qualidades que ele possui e sim pelas características em comum que ambos possuem. Dizer “te amo” virou tão rotineiro e comum que não se sabe mais o que essas palavras, que outrora faziam verdadeiros rebuliços nos apaixonados, significam.
O contato físico roubou o espaço do sentimento. Surgiu o ficar, o pegar, o possuir. E tem de ser tudo agora. As pessoas não querem mais que duas horas de carinho, uma noite de prazer. Esquecem que não ter alguém ao lado significa também não ter dentro. Não percebem que solidão é algo que exige coragem.
O sentimento passou a ser padronizado, rotulado, comercial. É produto que vende mais fácil em forma de celular em promoção de Dia dos Namorados do que poesia ou ele por si só. Tornou-se banal.
Ah, o amor, o amor, esse bichinho...

Michelle Corazza*
* Michelle é jornalista, anda trabalhando pra caramba e está sem tempo para desenvolver as ideias mirabolantes que seu cérebro produz. Mas como em breve será o Dia dos Namorados (e ela pretende ganhar muitas flores de admiradores assumidos), resolveu não deixar os Suspiros sem se pronunciar. O texto foi escrito em 8 de junho de 2006, para alguma aula de Redação do curso de Jornalismo.
"O amor é falta de QI", já dizia Caio Fernando Abreu.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Umbigo

Acordei com vontade de ficar na cama, mas ainda não estava mal-humorada. Passei pelo menos a primeira meia hora da manhã com um sorriso bobo na cara: “aaah, quinta-feira. Quase sexta”.
De repente, não mais que de repente, me veio a gana assassina e a vontade grotesca de comer o fígado de alguém. Raiva. Muita raiva. Uma fúria gigante. O céu ficou sem graça demais, o dia cinza demais, a minha alegria triste demais.
Aí fiquei tentando imaginar alguma coisa bacaninha que eu pudesse publicar no meu blog, porque faz dias que nada me inspira. E talvez eu me animasse de novo com o final de semana que bate à porta. Só que continuei com a cabeça vazia de ideias mirabolantes.
Dessa vez eu não vou falar sobre o amor que transborda no meu peito nem do amor que não pulsa em minhas veias. Não quero falar sobre o amor, porque a grande maioria das histórias melosas e românticas e bonitas que eu escrevo são mentiras. Só que eu vivo de verdade e a mentira me dói. E a falta de amor me machuca tanto quanto espinho no dedo. Só que a presença do amor me deixa em estado de Alpha e eu nunca consigo ser eu mesma.
Pensei em escrever sobre a saudade que sinto das minhas amigas e como a vida era infinitamente mais divertida sem o peso de “ser gente grande”. Mas eu acabaria com cinco lágrimas embaralhando meu olho esquerdo e uma vontade gigante de fugir daqui de novo.
Eu sinto falta de ser fodástica. Exatamente como naquelas vezes que eu levava um pé na bunda e ria da cara do coitado que jurava que eu tava de quatro. E ria mais ainda porque eu realmente estava de quatro, mas levar pé na bunda era tão comum e rir era tão bom, que eu ria. E me sentia fodástica por me enganar feito uma criança. Ou então como naquelas vezes que eu tirava um 10 em Redação com o Messa e me sentia fodástica por uma semana. Ou ainda quando recebia um oi do "construtor civil" depois de ter sido durona, ou uma cantada na volta pra casa.
A verdade é que ser fodástica o tempo todo é missão quase impossível pra gente grande, porque a vida é cheia de responsabilidades e mais responsabilidades. E ser fodástica exige leveza de espírito.
Ultimamente, as únicas vezes em que eu me sinto assim é quando eu consigo, no auge das minhas crises neuróticas-existenciais, controlar o pranto preso na garganta, segurar as lágrimas dentro do olho e fingir estar super-bem-obrigada, enquanto fico sentadinha na minha sala que mais parece uma vitrine de joalheria. É, grande começo!

Michelle Corazza