“O amor é um grande laço, um passo pr’uma armadilha. Um lobo correndo em círculos para alimentar a matilha.” Ah, o amor, esse bichinho. O amor não é cura, é doença. É extremo. O amor perturba, fascina, corrói, enlouquece. Dói quando falta ou quando transborda no peito. Tem cara, tem gosto, tem cheiro. Ah, o amor... Cantores da Música Popular Brasileira já fizeram sucesso ao entoar hinos românticos como Amor I Love You e Sozinho. O amor entrou no rol dos temas bregas. Mas ser brega, pelo jeito, é coisa que não sai de moda.
Filósofos e escritores se deliciam ao estudar o ser humano e suas relações de amor e ódio. O que fazer quando teorias surgem justamente para desconstruir tudo o que foi anteriormente assumido como verdade absoluta: o amor eterno, fiel, inocente? Não foi só a modernidade que passou a rasteira nos corações apaixonados, os romances deixaram de ser simbólicos para se acomodar aos dias atuais. Não existem mais Marílias e Lídias idolatradas. Não existem mais amores platônicos. O mundo gira rápido demais para alimentar emoções falsas. As pessoas estão mais preocupadas em serem objetivas do que alcançarem a felicidade colorida supostamente escondida nas entrelinhas do amor.
A vida agitada, a necessidade de se encaixar ao meio em que se vive, tudo influi e dificulta as relações entre as pessoas. Já dizia Drummond que o mundo pesa demais nos ombros. “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco”. O novo mal do século: a solidão!
O romantismo e as doces palavras de Drummond, Tomás Gonzaga ou Ricardo Reis, ficaram esquecidas na gaveta. Nos dias atuais, as pessoas parecem acreditar mais em teorias de Sartre e Nietzsche, onde a credibilidade das palavras cai no abismo e a descrença passa a ser a razão do mundo. A fidelidade virou piada; o casamento, a legítima comédia da vida privada.
O amor deixou de unir duas pessoas para ser individual e egoísta. Não se ama o outro pelas qualidades que ele possui e sim pelas características em comum que ambos possuem. Dizer “te amo” virou tão rotineiro e comum que não se sabe mais o que essas palavras, que outrora faziam verdadeiros rebuliços nos apaixonados, significam.
O contato físico roubou o espaço do sentimento. Surgiu o ficar, o pegar, o possuir. E tem de ser tudo agora. As pessoas não querem mais que duas horas de carinho, uma noite de prazer. Esquecem que não ter alguém ao lado significa também não ter dentro. Não percebem que solidão é algo que exige coragem.
O sentimento passou a ser padronizado, rotulado, comercial. É produto que vende mais fácil em forma de celular em promoção de Dia dos Namorados do que poesia ou ele por si só. Tornou-se banal.
Ah, o amor, o amor, esse bichinho...
Michelle Corazza*
* Michelle é jornalista, anda trabalhando pra caramba e está sem tempo para desenvolver as ideias mirabolantes que seu cérebro produz. Mas como em breve será o Dia dos Namorados (e ela pretende ganhar muitas flores de admiradores assumidos), resolveu não deixar os Suspiros sem se pronunciar. O texto foi escrito em 8 de junho de 2006, para alguma aula de Redação do curso de Jornalismo.
"O amor é falta de QI", já dizia Caio Fernando Abreu.